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Sinbaf

Sindicato Baiano dos Árbitros de Futebol

Entrevista: William Cavalcanti Lima

Uma história na arbitragem. Conversar com William Cavalcanti Lima sobre a profissão pode render um livro.

 

O Sinbaf não escreveu uma "obra", mas tentou trazer detalhes e relatos marcantes de quem viveu muitos anos na arbitragem. Em bate-papo com a equipe do site, o ex-árbitro e fundador do Sindicato, hoje com 66 anos, contou tudo e mais um pouco.

 

São opiniões, agradecimentos e revelações que podem servir como verdadeiros ensinamentos para os jovens árbitros da Bahia e do Brasil.

 

Confira abaixo a entrevista completa com o pernambucano que brilhou na arbitragem baiana:

Sinbaf: O que te fez escolher ser árbitro de futebol? O que a profissão representa na sua vida?

 

William Cavalcanti - Fui atleta quase profissional e, depois que tive contusão, resolvi estudar para ser árbitro. Fui árbitro do futebol de Salão, já tinha essa experiência, ai fiz um curso da Federação Bahiana de Futebol e segui a profissão. Acho que estava no sangue. Eu amo arbitragem, fiz na minha carreira com amor. A arbitragem representa tudo na minha vida. Passei quase vinte e poucos anos nela, profissionalmente foram 17 anos. É um tempo considerável. Se a profissão fosse regulamentada, hoje eu estaria aposentado por ela e muito bem.

 

Sinbaf: Quando começou a carreira? Quantos anos teve de carreira e quantos ficou nos quadros da FBF e CBF?

 

William Cavalcanti - Me formei em 1982. Na metade da minha formação já trabalhava no Intermunicipal. Em 1990 já estava na CBF e fui escolhido o melhor auxiliar do Norte-Nordeste. Trabalhei em semifinais de campeonatos brasileiros, como auxiliar, pois na minha época a gente fazia os dois, apitava e bandeirava. Hoje já não é mais assim.

 

Sinbaf: Quantos jogos apitou em toda a carreira? Qual deles considera o mais importante, aquele que nunca esquecerá?

 

William Cavalcanti - Apitei uma média de 3 mil jogos mais ou menos, como profissional e amador. Foram muitos. Só como profissional, foram mais ou menos mil e trezentos. O mais importante foi a final do Campeonato Mineiro em 1986. Fui auxiliar para Nei Andrade Nunes Maia, era um trio da Bahia, com Florêncio Ferreira também. Nesse jogo, tivemos uma cota fabulosa. Com o dinheiro do jogo, consegui comprar uma casa. Foi um jogo muito importante, mas o que marca a gente mesmo são os BAVIs.

 

Sinbaf: Como você enxerga a arbitragem brasileira hoje em comparação à da sua época? Evoluiu?

 

William Cavalcanti - A arbitragem teve uma evolução muito grande. Ficou dinâmica. Na minha época era mais devagar, o tempo de jogo era pouco. A arbitragem melhorou muito.

 

Sinbaf: E a arbitragem baiana? Vê novas revelações surgindo que possam manter o nível da arbitragem da Bahia?

 

William Cavalcanti - Na arbitragem baiana têm aparecido revelações. Agora mesmo veio o Marielson e já tínhamos o Jailson, o Arilson, que são árbitros que gosto muito. Esses três são os mais conhecidos meus. O Marielson vi criança. Arilson e Jailson já vi trabalhando com meu filho, o Abel (Jeferson). O que me preocupa na arbitragem baiana é que não deixam nossos árbitros apitarem decisões, apitarem BAVIs. Nós vimos o que aconteceu nesse ano, a calamidade pública que foi a arbitragem de fora na final do campeonato (Baiano). Na Bahia temos bons árbitros e auxiliares e esperamos que apareça mais gente.

 

Sinbaf: Você tem um filho árbitro, o Jefferson Abel. Você influenciou para que ele também seguisse a carreira na arbitragem?

 

William Cavalcanti - Tenho um filho árbitro, acompanho a carreira dele. Graças a Deus, ele tem um ótimo emprego, na Promotoria Pública de Eunápolis. Ele é muito dedicado na arbitragem e só quis ser auxiliar. Pergunto a vários árbitros consagrados e até ao Arilson, e todos falam bem. Fico triste porque faltou oportunidade para ele ingressar na CBF. Ele chegou a fazer um, mas sofreu um acidente de carro com a família e quase morreu. Isso foi um dia antes do teste. Ele foi para o teste abalado psicologicamente e não foi bem. Depois disso, não deram mais oportunidade a ele, que só tem 33 anos. Todo mundo fala que ele tem uma qualidade incrível. Então, queria ver ele no quadro nacional.

Sinbaf: Como é ser pai de um árbitro, costuma dar conselhos? Acompanha e avalia o trabalho do seu filho?

 

William Cavalcanti - Ser pai de um árbitro, e do Jefferson Abel, me dá muita alegria. Ele é muito dedicado e tem muita qualidade. Se eu não visse qualidade nele, eu falaria, sou sincero. Pelo que tenho visto, a Federação vai perder ele. Ele está muito dedicado ao emprego. Ele não vem sendo colocado em jogos importantes, não teve esse empurrão. Ai, ele vai deixar de se dedicar a o emprego dele bom? Não vai.

 

Sinbaf: O que você acha que falta ao árbitro de futebol em termos de apoio e estrutura para desempenhar a profissão?

 

William Cavalcanti - O árbitro tem que ser profissionalizado. É o único da estrutura do futebol que não é profissional. O árbitro, hoje, o que é o caso do meu filho, tem que ter outro emprego, pois depois que ele se aposenta, quem vai garantir o sustento dele e da família, se a arbitragem não é profissional?

 

Sinbaf: Qual seu ídolo na arbitragem e por quê?

 

William Cavalcanti - Eu me inspirava muito em Boschilia (Dulcídio Wanderley), de São Paulo. Era um árbitro de autoridade forte, de conhecimento da regra, era excelente, completo.

 

Sinbaf: Você foi o fundador e primeiro presidente do Sinbaf. Como foi essa experiência? Teve dificuldades ou apoio para a criação do Sindicato?

 

William Cavalcanti - Fui o primeiro presidente do Sinbaf e me orgulho muito disso. Sou pernambucano, mas morava em Salvador, sozinho, sem nenhum parente. Tinha ótimas amizades. Quando me tornei árbitro, tive o sonho de ser presidente de uma associação. Fundamos o Sindicato e realizei esse sonho. Até me emociono ao falar disso, pois lutei muito. Passei quase um ano com um livro de ata debaixo do braço. Quem me orientava era José Gomes do Santos, que é advogado. O Sindicato deve muito a ele também. Outros também ajudaram muito, como Wilson Paim, Agnaldo, Argemiro. Paim sempre esteve colado comigo. Hoje, posso dizer que o Sinbaf é uma marca minha, que deixei, pois ninguém queria Sindicato e eu vim com essa ideia. E fico muito feliz agora, pois essa é a primeira entrevista que me perguntam sobre o Sindicato. A única administração que lembrou de mim é a do Arilson. Outros, que foram meus colegas, passaram por minha turma, nunca me procuraram nunca me deram uma medalha. Fico muito agradecido ao Arilson por lembrar de mim e muito feliz também por saber que o Sinbaf hoje tem uma sala, é organizado.

 

Sinbaf: Quantos anos ficou no Sinbaf? Qual balanço faz da sua gestão? O que você pode citar de resultados e conquistas dos anos em que presidiu a entidade?

 

William Cavalcanti - Fiquei quase quatro anos no Sinbaf. Passei minha administração para o Paim. Minha administração foi ótima. Tínhamos dificuldades enormes, mas consegui criar e entregar ele funcionando bem. Só pelo fato de ter fundado, lutado, enfrentado muitos para que o Sindicato nascesse. Minha administração foi importante. Muitos presidentes de Federação também não queriam o Sindicato, tinham medo do que ele poderia causar. Mas, botei pé firme, passei por muitos presidentes de Federação e o único que me apoiou foi Marcos Andrade, me apoiou bastante, enquanto outros se retraíram. Mas, claro que não foram apenas flores. Tive desacertos também na minha gestão, o que faz parte. Quem diz que nunca passou por desacertos, está mentindo. O importante é que tive controle para passar por cima disso tudo. Minhas conquistas foram muitas. Ninguém sabe que fui o primeiro presidente de uma entidade nacional, a Cobrasaf. Eu, como presidente do Sindicato, junto com Alagoas, Sergipe, Piauí fundamos essa entidade. Fazia festas do Sindicato, confraternizações, todos os anos. Todos os seguimentos da arbitragem da Bahia foram para o Sindicato. Talvez, se eu não tivesse lutado pelo Sindicato dessa forma, ele hoje não estivesse vivo.

 

Sinbaf: Após a saída do sindicato, continuou trabalhando com arbitragem? Hoje, você exerce algum papel ligado à arbitragem?

 

William Cavalcanti - Continuo com arbitragem, está no sangue. Fui morar em Eunápolis quando sai do Sindicato. Formei um quadro fortíssimo no Extremo Sul, dando cursos e com apoio da Federação também, não posso negar isso. A Federação me apoiou e me apoia, pois formou e formei muitos árbitros, como o Lourival (Dias Lima Filho), ministrando cursos. Recentemente ministrei um, Ednaldo me deu apoio. Não posso criticar a administração de Ednaldo, porque não trabalhei com ele. O que posso dizer é que ele ajuda e deu uma mudada boa na arbitragem também.

 

Sinbaf: Que conselho você dá para aqueles jovens que têm o sonho de se tornar árbitros de futebol?

 

William Cavalcanti - Dou um conselho sem medo de errar. Só vá para a arbitragem quem tiver coragem, conhecimento. É uma profissão ótima para ter uma renda. Se profissionalizar, vai ser uma profissão melhor do que muitas ai. Dou conselho também às mulheres, que procurem a arbitragem cada vez mais, participem também. Os cursos que o Sindicato tem realizado são de qualidade, participem. É ter coragem e saber o que está marcando. Tem que ter coragem e conhecer a regra do jogo. Essas são as duas coisas mais importantes para quem quer ser árbitro.