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Sinbaf

Sindicato Baiano dos Árbitros de Futebol

Entrevista: Paulo Celso Bandeira

Foram quase 25 anos atuando como árbitro dentro de campo. Depois, ele passou a colaborar fora das quatro linhas. Hoje, já são quase 50 anos de dedicação à arbitragem.

 

Todo esse tempo foi dividido entre as funções de árbitro central, assistente, instrutor de arbitragem, assessor de arbitragem e membro da Comissão Estadual dos Árbitros de Futebol da Bahia (CEAF-BA).

 

Esse é Paulo Celso Bandeira, um dos muitos grandes árbitros que a Bahia produziu. Após entrevista com o ex-profissional do apito, o portal do Sinbaf conta abaixo um pouco sobre a vasta e rica história de Paulo Celso na arbitragem brasileira.


Paulo Celso Bandeira, ao lado de Manoel Garrido e Arilson Bispo

Confira a entrevista:

 

Sinbaf - O que te fez escolher ser árbitro de futebol? O que a profissão representa na sua vida?

 

Paulo Celso: Sempre amei futebol. Desde criança, meu pai, que era Botafogo (da Bahia), me levava até a Fonte Nova para assistir aos jogos do alvirrubro. E assim, também virei torcedor fanático do Botafogo. Nunca tive o prazer de ver nosso time campeão, mas estava sempre presente com minha bermuda branca e camisa vermelha. Depois comecei a jogar futebol e me revelei um bom goleiro (verdade) e dos 16 aos 18 anos atuei nos juvenis do São Cristóvão e Energia. Aos 18 passei a atuar pelos amadores do Ouro Preto e defendia a seleção do Exército. Num jogo entre a seleção do Exército e os reservas do Vitória, fiz tantos milagres no gol que o Vitória me convidou para ser o goleiro de sua equipe amadora. E por 2 anos defendi o time amador do rubro-negro e passei a ser o terceiro goleiro dos profissionais, passando a reserva do time titular durante o Nordestão/1970, com a trágica morte do goleiro Pedro Carlos, por afogamento. Esse papo com o Sinbaf começa ótimo, por me dar essa oportunidade de revelar esse fato que quase ninguém conhecia.  Em  1971 eu e meu amigo Aquiles Veras, também  companheiro do Exército, vimos no jornal A Tarde uma notícia sobre seleção para um curso de árbitros na FBF. Resolvemos nos inscrever, e um ano depois recebíamos o diploma de Árbitro de Futebol, que muito me orgulha. E a arbitragem representou um dos períodos mais importantes da minha vida pois sempre me dediquei inteiramente a ela, e ela me proporcionou momentos marcantes, emocionantes e só tenho agradecimentos pelas oportunidades que a arbitragem me proporcionou. São as histórias do Play!

 

Sinbaf - quando começou a carreira?

 

Paulo Celso: Em 1972 em jogos amadores no antigo campo da Graça. Em 1973 fui  escalado pela primeira vez na Fonte Nova no jogo amador Oceania x Natal,  mas no dia seguinte tive que viajar para Três Corações-MG ( a terra de Pelé ) para um curso de   Aperfeiçoamento do Exército e durante 7 meses me afastei da FBF . Lá, aconteceu algo interessante. O presidente do Atlético Tricordiano, que havia sido  vice-campeão mineiro foi até a ESSA  ( Escola de Sargentos das Armas) consultar se havia algum árbitro na nova  turma de militares. Por sorte, só havia eu, e fui convidado para apitar amistosos do Atlético. Assim, atuei em jogos do Atlético contra Vasco, Portuguesa, etc e tive a honra de atuar no penúltimo jogo da vida de Garrincha, ele atuando pela Seleção de Lavras. Na semana seguinte Garrincha se despediu do futebol diante de 150.000 pagantes no Maracanã!

Na volta, solicitei à Federação Mineira um ofício sobre a  minha participação nesses jogos o que muito contribuiu para a minha promoção imediata ao quadro principal da FBF. E então comecei aquela contagem famosa dos 539 jogos. Histórias do Play!

 

Sinbaf - Quantos anos teve de carreira e quantos ficou no quadro da CBF?

 

Paulo Celso: Atuei de 1972 a 1996. Na CBF fiquei de 1979 a 1995, sendo que durante 8 anos pertenci ao Quadro Especial. Na época eu dizia que era o décimo quinto árbitro nacional, porque eram 7 Fifa, 7 Aspirantes e 14 no Quadro Especial (risos). Quando eu tinha 47 anos a idade limite dos árbitros foi reduzida para 45 anos. Assim, perdi 3 anos de Nacional

 

Sinbaf - Quantos jogos apitou em toda a carreira? Qual deles considera o mais importante, aquele que nunca esquecerá?

 

Paulo Celso: Como divulgo sempre, foram 539 jogos profissionais, 90 % deles como árbitro central. Foram muitos jogos importantíssimos ( 3 decisões baianas, 1 alagoana, 1 sergipana, amistoso da seleção da Dinamarca, amistoso da Seleção Brasileira Olímpica, Campeonato Brasileiro de Seleções, mas a minha primeira grande chance me foi dada pelo tio do nosso companheiro Kléber Moradillo, o Sr Elivaldo Moradillo, que teve a ousadia de me escalar no jogo Bahia x Flamengo  diante de 55.000 pagantes , num grande amistoso. Eu, que nunca havia apitado um único jogo pelo campeonato baiano, faço a estreia num jogo desse porte ! Oficialmente nunca havia sido escalado como árbitro central no campeonato baiano, mas uma vez, em Alagoinhas, tive que substituir o árbitro Manoel Serapião no jogo Atlético x Vitória pelo quadrangular decisivo de um dos turnos. Serapião se contundiu aos 15’ do primeiro tempo, entrei, fiz um belo trabalho elogiado por todos, mas logo depois voltei à minha rotina de auxiliar (risos). Histórias do Play


Paulo Celso apitando amistoso entre Seleção Brasileira e Catuense

Sinbaf - Qual foi o jogo de sua despedida? O que sentiu quando entrou no gramado sabendo que seria seu último trabalho na arbitragem brasileira?

 

Paulo Celso: Vitória 1 x 0 Internacional/RS em 1996, na Fonte Nova, pelo Torneio Maria Quitéria. Aos 44‘ do segundo tempo entreguei o apito ao árbitro Adriano, esposo de Tânia (na época), que encerrou o jogo logo em seguida. Sempre fui muito frio emocionalmente. Assim como vi com naturalidade a minha escalação no Bahia x Flamengo, citado anteriormente, também entrei com tranquilidade na minha despedida. Ainda mais que sabia que iria colaborar logo em seguida na Escola de Árbitros que funcionaria  numa parceria FBF/Faculdade Católica

 

Sinbaf - Como você enxerga a arbitragem brasileira hoje? Evoluiu?

 

Paulo Celso: A arbitragem brasileira evoluiu muito na parte física. Os árbitros de hoje são muito superiores fisicamente aos da minha época. Nós apenas fazíamos o teste de Cooper para ingressar na CBF ( mas tínhamos física obrigatória às terças e quintas) e os atuais enfrentam uma bateria de testes muito mais difíceis. Se não houver treinamento contínuo, nunca será aprovado. Entretanto, na parte técnica, a arbitragem regrediu. E por um detalhe importantíssimo: o posicionamento em campo. Atualmente, os árbitros brasileiros, e sul-americanos em geral, parecem cachorros querendo morder uma bola. Aonde a bola vai, o árbitro vai atrás. Existe um Livro de Regras sugerindo o melhor posicionamento durante o jogo e os posicionamentos durante as cobranças dos tiros livres. NINGUÉM segue esse manual. Esse é o principal fator de tantos erros nesses últimos anos. Na nossa época, Ken Aston ( na Fifa) e o coronel  Áulio Nazareno ( presidente da CA/CBF) exigiam rigidamente esses posicionamentos. Na Europa, os árbitros cumprem à risca esses mandamentos. No Brasil, há mais de uma década que esses ensinamentos foram abandonados. Então......haja erros.

 

Sinbaf - E a arbitragem baiana? Como avalia o nível da arbitragem da Bahia?

 

Paulo Celso: O quadro baiano é dos melhores do Brasil (sem fazer média). Temos árbitros maravilhosos como Jailson, Arilson, Marielson (todos já foram Aspirantes à FIFA), além de nomes como Diego, Emerson, Reinaldo, Bruno, Ricarle, Gleidson, John e surgindo também o Joedson e outros na reserva. Pergunto: qual Federação tem um potencial desses? Garanto que nenhuma ! Ninguém tem 10 nomes fortes como os nossos. Repito: NINGUÉM . E observe que recentemente 2 outros ótimos árbitros tiveram que se afastar da arbitragem  por atingirem a idade-limite : Lúcio e Garrrido. É muita competência numa só Federação! Pena que a nossa FBF não prestigie como deveria essa maravilhoso quadro, inclusive junto à CBF. Mas isso é antigo! Durante a gestão de Marcos Andrade TODAS as decisões de campeonato e até abertura de Intermunicipal tiveram árbitros de fora. Era uma farra! Houve rodada em que TODOS OS JOGOS foram arbitrados por árbitros de outros estados. Até Serrano x Leônico , Galicia x Ipiranga  e dezenas de outros jogos tiveram árbitros de fora. Durante os 8 anos de Marcos o título de Melhor Árbitro do Ano sempre foi concedido a um árbitro estranho ao nosso quadro : Dulcídio (algumas vezes) Márcio Rezende e outros menos votado. Uma piada! Por isso me candidatei a Presidente da FBF em 1993, desafiando Marcos. Minha candidatura proporcionou a chance de o Dr Virgílio Elísio vir a ser o Presidente da FBF, em virtude de a chapa de Pedro Roberto (candidato de Marcos)  haver ficado inelegível em virtude de os 2 vices da chapa haverem solicitado a retirada de seus nomes da eleição. Essa é a versão real!

 

Sinbaf - O que você acha que falta ao árbitro de futebol em termos de apoio e estrutura para desempenhar a profissão?

 

Paulo Celso: Apoio e confiança na qualidade do árbitro. Noto que sempre que quando o árbitro é escalado a preocupação maior reside em identificar as falhas e não os acertos durante os jogos. Inclusive por parte dos próprios árbitros. Mas isso é antigo. É a rivalidade. O que o árbitro mais  deseja é o carinho , o aconchego, o abraço sincero de seus superiores. Quando cometerem algum deslize, que tenham suas orelhas puxadas, mas quando derem “aquele show” que recebam um telefonema, um aperto de mão, um abraço como reconhecimento pelo belo trabalho! Sempre notei, e me incomodei, que  nas reuniões da FBF com os árbitros, só choviam críticas e  ameaças. Uma pena! Há um detalhe importantíssimo quanto ao tratamento dispensado pela FBF aos árbitros que se afastam do quadro por vontade própria ou por atingir a idade-limite: não recebem uma só ligação para agradecer os BONS SERVIÇOS prestados à FBF. Uma simples placa de agradecimento numa rápida reunião com os dirigentes baianos  poderia mudar a convivência entre árbitros/FBF. Várias vezes abordei esse assunto com o presidente Ednaldo e Paim, mas nada mudou.

 

Sinbaf - Qual seu ídolo na arbitragem e por quê?

 

Paulo Celso: Arnaldo César Coelho. Quem quiser aprender a postura perfeita de um árbitro de futebol, procure na internet o vídeo do programa Altas Horas do dia 03 desse mês. São apresentados alguns lances de Arnaldo, e lá estão o que considero postura, deslocamentos e sinalizações perfeitas. Em 1979 fui escalado para a decisão do campeonato baiano entre Bahia x Vitória. Recebi a súmula e a bola do jogo em casa, para não ter que ir até a FBF e evitar exposição. Mas antes da divulgação oficial, a FBF me ligou e disse que os clubes me achavam ainda inexperiente para jogo tão importante e resolveram convidar Arnaldo para apitar o clássico. Então, me colocaram na bandeira dele. Daí, fizemos uma boa amizade. Uns 15 dias depois, eu e Arnaldo fomos convidados para atuar numa  rodada decisiva do campeonato alagoano. Ele apitou em Maceió, e eu em Palmeira dos Índios. Não sei se não foi indicação dele. Ele disse que não. Ficamos no mesmo apartamento durante o final de semana e sempre que eu ia ao Rio, ele ia aos vestiários me dar um abraço. E fui algumas vezes ao escritório dele na Multiplic tomar um cafezinho.  E depois ele apitou uma final de Copa do Mundo! Tem que ser o meu ídolo! Histórias do Play


Paulo Celso, no centro, no início da carreira

Sinbaf - Após encerrar a carreira, você trabalhou continuou colaborando com a arbitragem na CEAF. Como foi a experiência?

 

Paulo Celso: Após o encerramento, fui instrutor dos 2 cursos de arbitragem seguintes, convidado pelo presidente Virgílio Elísio. Ele também me mandou realizar o Curso de Instrutor de Arbitragem da Conmebol. Aí fiquei um tempo afastado até o presidente Ednaldo me convidar para participar da Ceaf e do quadro de Assessores da CBF. E me mandou realizar o Curso de Instrutor de Arbitragem da FIFA. Quanta honra: Instrutor Conmebol e FIFA! Todos sabem que os membros da Ceaf não têm voz altiva para escalações e formação do quadro nacional e regional. Assim, nas poucas oportunidades que tive, procurei lutar pelo que já citei anteriormente: a cobrança da diagonal e posicionamento nos tiros livres, postura, ética, imparcialidade, preparo físico e psicológico. Reconheço que às vezes chego a ser chato com essas cobranças, mas é porque sei que o segredo e sucesso de uma boa arbitragem reside nesses poucos detalhes.

 

Sinbaf - Na CEAF você conseguiu contribuir com a arbitragem da forma que desejava após ter deixado de atuar?

 

Paulo Celso: Se consegui, não sei, mas tentei, apesar do pouco espaço que os membros têm para  externar suas  ideias e elas serem aproveitadas. Normalmente, as decisões já chegam prontas. É um estilo de comando. Obedece quem quiser.

 

Sinbaf - Qual conselho você dá para aqueles jovens que têm o sonho de se tornar árbitros de futebol?

 

Paulo Celso: Dedicação total! Dominar totalmente as regras tanto no aspecto teórico quanto prático. Nos jogos, coragem no momento de decidir, imparcialidade acima de tudo, ética com companheiros, jogadores e dirigentes da FBF e clubes. Preparo físico 100% durante toda a carreira, e na vida. E antes que eu esqueça: diagonal e posicionamentos nos tiros livres, postura e sinalizações (treinem no espelho). (Risos).