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Sindicato Baiano dos Árbitros de Futebol

Não há VAR que resista à falta de educação dos campos brasileiros

Personagem criado por Jô Soares nos anos 80, Dom Casqueta era um chefe mafioso italiano que se instalara no Brasil. A cada plano frustrado por trapalhadas de seus comandados e pelas peculiaridades deste país tropical, soltava seu bordão: “Não manda a máfia pro Brasil, que esculhamba a máfia”.

O futebol ameaça fazer algo similar com o árbitro de vídeo. Jogadores e treinadores brasileiros sempre enxergaram o juiz não como mediador, como um agente a serviço do espetáculo. Mas como um adversário que deve ser testado até seu limite mental, ludibriado para que dele se extraia alguma vantagem. Ainda que por via antiesportiva.

Todo este esforço, agora, se direciona para o VAR. Em nenhum lugar do mundo a implantação da nova tecnologia enfrenta teste tão duro. O recurso ao vídeo veio para dar credibilidade ao jogo, ao negócio que sustenta jogadores, treinadores e tantos profissionais.

Mas bastaram poucos dias com o VAR no Brasil para que experiências constrangedoras fossem registradas. A rede social do Palmeiras desqualificou o recurso, afirmando que ele nunca age a seu favor. O Fla-Flu, exibição de falta de educação em níveis intoleráveis, teve consulta ao vídeo enquanto técnicos e jogadores berravam no ouvido do árbitro; ataques histéricos após a decisão do juiz; pedidos de consulta ao vídeo em lances não previstos pelo protocolo. É assustador o desconhecimento sobre a nova regra do esporte que é a profissão de atletas e técnicos; é também lamentável o esforço deles para desacreditar o recurso caso a decisão não satisfaça. Dane-se a credibilidade do jogo, o pensamento é individualista. Que não se subestime a capacidade brasileira de “esculhambar o VAR” e, depois, colocar a culpa na tecnologia.

O festival de grosserias e ameaças a juízes impede até que a consulta às imagens seja feita com alguma frieza. No fundo, busca-se a imposição pela pressão. Não há VAR ou senso de esportividade que sobrevivam.

O futebol reflete o que somos como sociedade e há um pano de fundo aí: a lógica do “ganhar a qualquer custo”, norte de nosso dia a dia e radicalizada nos estádios, do campo à plateia. Não à toa, Bruno Henrique, autor de uma entrada inqualificável no tricolor Gilberto, foi expulso e deixou o campo com o nome gritado pela torcida, como se o risco à integridade do adversário e o gesto violento fossem menos relevantes do que um certo senso de defesa da honra. Trata-se da cafajestagem e da truculência usadas como eficazes atalhos para ganhar a simpatia da torcida.

Onde valoriza-se o fim mais do que os meios, é natural que o futebol se torne um ambiente tenso, em especial nos clássicos locais, onde convencionou-se crer que, de fato, a honra está em jogo. É cada vez mais raro desfrutar do futebol. Teme-se a derrota acima de almejar a vitória. Joga-se menos pela glória do que para evitar a dor insuportável de ver o rival celebrar e tripudiar.

O que talvez explique ver o Flamengo tão pilhado na quarta-feira. É tão mais rico do que os rivais que, por um momento, tornou-se inaceitável vê-lo perder o título. Jogar o campeonato é um fardo. O prêmio por vencer é menor do que o dano moral da derrota.

Igualmente pilhado, o Fluminense não soube lidar com a vantagem de um jogador no Fla-Flu. Pela primeira vez, teve certa obrigação de ser protagonista do duelo contra o endinheirado adversário. E o time travou diante de um jogo que se oferecia.

Técnicos sofrem do coração, jogadores se agridem. Falta leveza, e não só em times grandes. Na quarta-feira, o repórter Pedro Capetti, do GLOBO, foi a Bangu conversar com o técnico Ado. Onde supunha encontrar um homem realizado por levar o time à semifinal do Estadual, encontrou um homem angustiado. “Meu estresse é muito alto. Tenho uma dívida com o clube.”Há 34 anos, Ado vive como se pagasse a pena pela perda do pênalti na final do Brasileiro de 1985. A lógica através da qual entendemos o futebol o fez assumir o papel de vilão por um erro esportivo. Hoje, não enxerga na chance de reconduzir o clube a dias gloriosos algo além de sofrimento. 

Fonte: blogs.oglobo.globo.com

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